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Postado em 11/08/2008 - 09:30

Guanhães, te quero bem.
Guanhães te conheço bem.


Travessa dos Leões (ou do salões?) - Parte II


A Folha de Guanhães volta à sua viagem pela história e personagens que fazem parte da Travessa dos Leões e também pelos salões de belezas que ocupam os pontos comercias que estão distribuídos pela travessa.

E volta à Travessa dos Leões (salões?) em grande estilo, ouvindo o mais velho cabeleireiro de Guanhães, Juventino Paulo Ferreira. São 78 anos de vida, sendo 60 anos de profissão exercidos diariamente na cidade.

“Seo” Juventino começou cortando os cabelos dos irmãos, depois dos vizinhos de roça e a clientela foi crescendo, tudo isso em Assunção, distrito de Virginópolis. Foram nove anos na zona rural e com o casamento, o cabeleireiro mudou-se para cidade.

No primeiro salão da cidade em que trabalhou a sua capacidade profissional incomodou o patrão, que pediu para que o jovem cabeleireiro fosse embora, pois temia que ele roubasse os seus clientes, foi quando Juventino decidiu mudar-se para Guanhães.

O primeiro emprego de cabeleireiro foi em um salão próximo a Igreja Matriz de São Miguel. Ali Juventino não permaneceu muito, pois acabou aceitando a proposta de Genaro Pereira da Silva, o Niquinho, uma parceria que perduraria por 20 anos. Após duas décadas de parceria o desgaste levou os dois a se separar.

Dali “seo” Juventino, agora um cabeleireiro experiente, decidiu seguir a profissão sozinho. Vagou pela Rua Odilon Behrens, até chegar a Travessa dos Leões. “Eu pensei: ‘essa rua não está boa nada, vou para a Travessa dos Leões’”, lembra o cabeleireiro. “Seo” Juventino é o cabeleireiro há mais tempo na Travessa dos Leões, viu cada um dos salões que ali estão abrindo, inclusive o mais antigo que já teve vários proprietários. Na época, ele ainda não trabalhava na travessa, mas lembra que uma mulher era proprietária do salão. A mulher é Maria Flor de Maio, que já não vive mais em Guanhães – acredita-se que já tenha falecido - e repassou o salão para Ademar Souza Costa, que depois foi repassado para o irmão Iluminato Souza Costa e, hoje, é dirigido por Edílson Alves de Lima.

Toda essa transição no salão mais antigo da travessa e tantas outras foram acompanhadas pelo velho cabeleireiro que nunca pensou em sair do local, mesmo com a concorrência que crescia exorbitantemente. “Eu sou o mais velho aqui [na Travessa dos Leões], não saio não, pode até montar colado comigo. Enquanto eu viver eu estou aqui [na Travessa dos Leões], vou descansar agora, mas depois eu volto a trabalhar”, conta o cabeleireiro que diz estar “doido” para rever o velho salão, mas as dores que vieram com os anos de profissão o impede de voltar à labuta diária.

São tantos anos de profissão que o corpo começou a cobrar de “seo” Juventino a lealdade ao trabalho. As mãos estão fracas, sem força para segurar a tesoura que por muito tempo foi como uma extensão das mãos. Os pés e os joelhos cobram uma exigência da profissão: ficar em pé, enquanto o cliente, acomodado na cadeira, vê as mexas de cabelo caindo, ou os pêlos da barba sendo arrancados com a delicadeza que só a navalha consegue. A cadeira é tão confortável que um cliente fiel já se propôs a comprá-la quando “seo” Juventino aposentar.

Já fazem três meses que o salão de “seo” Juventino está fechado, e para infelicidade dos clientes, a porta do salão não tem data para ser reaberta. Os clientes fiéis, ou melhor, os amigos o visitam sempre. Não é só a precisão do profissional que eles sentem falta, é também da amizade, da conversa jogada fora quase que diariamente.

Porque salão não é lugar só de cortar cabelo ou fazer barba, é lugar de conversar, de fuxicar, contar piada, discutir política, futebol e todos os outros assuntos que entrarem na pauta. O salão de Ademar Souza Costa é demonstração disso, são quase dez clientes que passam diariamente, não para cortar cabelo, o que eles fazem geralmente uma vez ao mês. A parada diária é sempre em busca de um bom papo, de uma boa conversa. “No salão sai de tudo, futebol, política e é ponto de fuxico”, conta o cabeleireiro.

Ademar Costa é um cabeleireiro tradicional em Guanhães, foi o primeiro a assumir o mais antigo salão, quando Maria Flor de Maio decidiu ir embora da cidade. Na época o salão lhe rendeu um apelido: “Flor do Salão”, dado por um amigo.

Mas Ademar não permaneceu muito tempo no local, saiu da travessa, da cidade, do país, foi para os Estados Unidos. Quando voltou abriu um outro salão e, nessas idas e vindas, já são 28 anos na Travessa dos Leões. O cabeleireiro prefere trabalhar sozinho, se diz realizado, são nada menos que 300 clientes atendidos por mês no seu estabelecimento.

Começou em São Paulo, foram oito meses de curso e depois foi trabalhar de ajudante. “O certo é mais tempo na escola e depois trabalhar no salão, mas não é só curso que resolve, o serviço diário é que aperfeiçoa o profissional”, afirmou. O cabeleireiro conta que os clientes hoje não precisam nem dizer o que querem. “O cliente senta na cadeira e já sei o que ele quer, só quando quer mudar, mas é raro”, afirmou.

Com 29 anos de profissão, sendo 17 deles dedicados em Guanhães, Nálidy Maria Fernandes Oliveira Ferreira, disse que sempre sonhou em fazer faculdade ou seguir outra profissão. “Sempre tive o sonho de me formar em Contabilidade”, lembra, mas foi no salão de beleza que Nálidy Ferreira aprendeu uma profissão, a de cabeleireira. “Gosto de tudo na profissão”, diz ela. “Desisti do sonho de ser contadora, mas mesmo assim sou feliz”.

Nálidy Ferreira conta que o horário de trabalho sempre foi a maior dificuldade da profissão. Segundo ela, o ritmo de trabalho só diminuiu depois de um aneurisma, que a tirou do salão por dois meses. “Depois do aneurisma passei a valorizar mais a vida e ter um certo controle, diminui o ritmo”, disse a cabeleireira que passou por duas cirurgias e venceu a doença que não deixou nenhuma seqüela.

Segundo ela o fato dos salões se concentrarem na Travessa do Leões não altera na clientela, pois o guanhanense é exigente e o que garante a fidelidade de um cliente é a confiança no trabalho, além disso, continua, existe o respeito entre os profissionais da travessa. “A concorrência existe, mas não é uma concorrência suja”, garante a cabelereira que saiu da Odilon Behrens esquina com a travessa e hoje encontra-se inteiramente na Travessa dos Leões e que produziu as cabeças de grandes eventos da cidade.

Dominada pelos salões, a Travessa dos Leões respira beleza e simpatia dos profissionais que ali exercem uma profissão nobre e necessária para a sociedade atual, que valoriza tanto a beleza.

Vaidade: Homem X Mulheres

Quando a questão é vaidade, as mulheres ainda dominam os salões de beleza de Guanhães, mas os profissionais guanhanenses já apontam: o interesse dos homens vem crescendo. Para o cabeleireiro Edílson Alves de Lima, as mulheres ainda procuram mais os salões de beleza, mas os homens têm procurado outros serviços além do simples corte. “Eles têm procurado outros tipos de serviços como a depilação, modelagem de cabelo, entre outros”, disse o cabeleireiro. Apesar de ter um público maior do sexo feminino, Iluminato Souza Costa diz que o homem tem ido cada vez mais ao salão de beleza. “O homem está muito preocupado com a aparência, mas a mulher ainda sai na frente porque tem mais opções para ela, mas o homem está procurando bastante” disse. Já para Jadir Padilha de Oliveira o homem já está no mesmo patamar da mulher quando o assunto é vaidade. “Tudo o que a mulher faz, hoje, o homem também faz”, enfatiza Jadir. Segundo ele serviços como limpeza de pele, unha, hidratação, sobrancelha, já não são mais serviços específicos para as mulheres.


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