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Postado em 04/08/2008 - 09:30

Guanhães, te quero bem.
Guanhães te conheço bem.


Travessa dos Leões (ou do salões?)


Quando o prefeito Dr. Jovino de Barros decidiu dar o nome a Travessa dos Leões, em 1983, ele o fez convencido que homenagearia os comerciantes da cidade. É o que conta o autor de Notas Históricas sobre Guanhães, Inocente Soares Leão.

“Assim, com a denominação de ‘Travessa dos Leões’, homenageou o comércio nas pessoas dos irmãos Benjamim e Emílio Leão, guanhanenses – que, por muitos anos, fizeram da mercancia profissão habitual.”

O que provavelmente o prefeito não imaginava é que a Travessa dos Leões seria algum dia dominada - no bom sentido - pelos salões de beleza, um tipo diferente de comércio que não deixa nenhum comerciante de cabelos brancos, a menos que queiram exibir as madeixas em neve. O enteado de Benjamim Coelho Leão, Éder Ferreira Campos, conhecido como Tito, conta que o padrasto sempre gostou de ter o seu nome dado a uma rua da cidade que ele tanto estimou. “Ele falava para gente que a rua tinha sido nomeada em homenagem aos irmãos, ficava satisfeito de ser lembrado ainda em vida”, afirmou.

Benjamim Leão era um conhecido comerciante da cidade, como o próprio enteado conta, negociava de canivete a cavalo, não muito diferente do que os salões de beleza fazem hoje. O local, que antes era utilizado para um simples cortar de cabelo ou para aparar o bigode, hoje, cuida da ponta do cabelo às unhas dos pés, literalmente.

Tito lembra que o padrasto tinha um estilo clássico inglês, com um bigode branco, fino trato e boa conversação, ou seja, um homem preocupado com a aparência, coincidência ou não, a travessa que leva o nome de sua família hoje, é um dos principais pontos visitados - senão o principal - dos que se preocupam com a aparência.

Outro descendente da família Leão, o também comerciante Eustáquio Leão, ou simplesmente Leão do Armazém Aliança, ramo em que o neto de Emílio Leão trabalhou por 35 anos num tradicional estabelecimento no qual deu baixa recentemente, informa à nossa reportagem mais da história da Travessa dos Leões.

Antigamente, conta Leão, a travessa era apenas até a Rua Odilon Behrens, não chegava à Avenida Milton Campos. Animado, Leão continua a sua incurssão pela história que tem prazer em contar. “Quem fez a abertura para que a Travessa dos Leões chegasse até a Avenida foi o Tio Joãozinho (o Leôncio). Ele indenizou a Sá Donê (primeira disciplinária da Escola Normal), que morava na casa que ficava entre o Cinema e o Banco da Lavoura e ampliou a Travessa”.

ZO neto de Emílio Leão conta que morou com o pai Jader Leão e os irmãos Mônica, Emílio e Cira, em uma das duas casas da família que faziam a esquina da Travessa com a Rua Barão do Rio Branco. “Na esquina da direita, morou o Tio Benjamim e sua confortável casa de imenso quintal fazia divisa primeiro com o Tatão Ayala (na Travessa) e depois com o atual Grande Hotel na Odilon Behrens. Na esquina esquerda, na casa do vovô Emílio, depois que a mamãe adoeceu, morávamos o papai, eu e os meus irmãos. A nossa casa fazia divisa com o território do João Lopes, pai do Helvércio Lopes, até a Odilon Behrens, onde foi antigamente o Cafezinho Recreio”, declarou.

No início, finaliza Leão, a Travessa dos Leões era o acesso para o antigo Colégio (Escola Odilon Behrens) e a relação com os atuais salões de beleza, deve ser pelas beldades que subiam e desciam a íngreme rua para acessar o mais tradicional educandário da região.

O início da “invasão”

Pelo que se sabe, a Travessa dos Leões recebeu o seu primeiro salão em 1984. O cabeleireiro Ademar de Souza Costa foi o primeiro, segundo o irmão Iluminato Souza Costa, a abrir um salão na travessa. Na época, o irmão ficou com o salão por um ano no local, mas depois decidiu vender para ele o estabelecimento.

Iluminato conta que houve alguma resistência quando ele e o irmão começaram na Travessa dos Leões, mas as novidades apresentadas pelo salão na época surtiram efeito.

“Quando nós chegamos, na época, o salão ou era masculino ou era feminino, não existia unissex. Quando abrimos o salão, colocamos um lavatório para lavarmos os cabelos, era coisa moderna para época na cidade, foi onde melhorou para todos que tinham salão, porque os outros decidiram aperfeiçoar e correr atrás”, lembra Iluminato.

O cabeleireiro afirma que o guanhanense sempre se interessou pelo novo, e que esta exigência do cliente pela novidade ajuda na qualificação do profissional.

“Tem de estar sempre inovando e correndo atrás”, disse Iluminato que afirmou freqüentar feiras e eventos nos grandes centros, como São Paulo e Belo Horizonte. “Indo a eventos grandes, você chega à frente, porque vê novidades, e, hoje, tem de buscar mesmo, porque uma boa parte do guanhanese tem conhecimento e está consciente do que está sendo feito”, afirmou.

Com 22 anos de profissão, o cabeleireiro Edilson Alves de Lima chegou a Guanhães em 1989 para trabalhar junto com Iluminato Costa, e, hoje, dirige o salão mais antigo da Travessa dos Leões. Segundo ele, a concentração dos salões na travessa pode estar ligada a um sentimento de segurança que o cabeleireiro tem ao se instalar no local, e isso, segundo ele, tem o seu lado bom e ruim. “O lado bom, é porque passa a ser um ponto definido onde se encontram os cabeleireiros. Já o lado ruim, é que sempre é um concorrente a mais no local”, explica o cabeleireiro.

Edilson de Lima explica que apesar da concentração de salões na travessa “a relação entre os cabeleireiros é tranqüila e de respeito profissional”. Para ele o mercado em Guanhães já está saturado, mas a exigência do mercado de trabalho com o quesito estética tem aumentado a procura pelos serviços nos salões de beleza.

“Melhorou para nós e está crescendo muito esse mercado da estética, principalmente na procura por cosméticos corporal, facial e capilar”, conta o cabeleireiro. “Há uns 15, 20 anos o pessoal tinha vaidade, mas hoje ninguém quer ser inferior a ninguém na aparência e o mercado de trabalho exige aparência”, disse.

O número de profissionais na cidade pode até ser grande, mas se depender de Jadir Padilha de Oliveira, proprietário do único salão escola da região, vai continuar crescendo. Segundo o professor e cabeleireiro, são cerca de 10 alunos formados por mês no salão escola.

Jadir Oliveira acredita que existem aproximadamente 80 salões em pleno funcionamento na cidade. Em uma conta rápida e utilizando-se só da memória, o cabeleireiro chegou a impressionante marca de 50 salões. “Tem salão demais, a gente toma até um susto com isso tudo”, conta.

O ex-funcionário público conta que já faz 14 anos que trabalha no ramo, e com apenas dois anos de profissão já começou a ensinar aos outros a profissão que sempre sonhou em seguir. “Era para ser minha profissão, mas eu não sabia”, disse o cabeleireiro que começou a trabalhar na zona rural, onde vive até hoje. “Montei o salão em casa, usava tamboretes para as pessoas se sentarem, fiquei sete meses trabalhando na roça”, lembra.

Apesar de ser o proprietário do único salão escola da região, Jadir Padilha também se destaca pelo trabalho solidário. Segundo ele, são atendidos em média 25 pessoas por dia gratuitamente em seu estabelecimento. “Quem tem, paga. Quem não tem, paga depois. E quem não pode, a gente faz de graça”, afirmou o cabeleireiro. “Nunca deixei sair ninguém sem ser atendido”, conta o cabeleireiro, que também realiza outros trabalhos voluntários na cidade.

Dono de um estabelecimento especializado em produtos e equipamentos para o cabelo na cidade, Marcelo Andrey Nunes Coelho, afirma que a maioria dos clientes, curiosamente, não são os salões de beleza, mas pessoas comuns que preferem fazer o tratamento em casa.

“Hoje em dia, devido ao custo, muita gente procura o produto para fazer o tratamento em casa”, afirmou Marcelo Coelho, que disse ainda que 40% dos que compram em sua loja são profissionais, enquanto 60% são clientes normais.

As novidades estão sempre entre os itens mais procurados, mas segundo o proprietário, “a maioria tem medo de mudanças bruscas no visual”. De acordo com ele, as tinturas raramente fogem das cores básicas como o preto, o castanho e o loiro.

De cabeleireira a design de moda

Márcia Donca Leôncio é a cabeleireira mais antiga da cidade em atuação, segundo ela. São 30 anos mudando o visual do guanhanense. Mas ela não se destaca somente por seus anos de profissão na cidade. A frente de seu tempo, Márcia Donca não se considera mais uma mera cabeleireira, e, sim, uma design de rosto.

“Hoje não se fala mais salão de beleza, se fala estúdio. Não existe mais cabeleireiro, existem muitos cabeleireiros sim, mas a função nossa não é mais isso, hoje, é design de rosto, design de moda”, explica Márcia Donca.

Segundo Márcia Donca o profissional vende toda a bagagem cultural que ele adquire com as tendências da moda, que, segundo ela, sempre está voltada para a atualidade e busca trazer praticidades e benefícios para as pessoas.

Mas as mudanças não param por ai. Segundo ela os clientes não estão mais em busca de apenas um corte de cabelo.

“A pessoa não procura mais um profissional para fazer um serviço de utilidade publica, que seria cortar o cabelo, para colocar o indivíduo de acordo que ele não se torne ridículo”, diz a design de cabelo. “Não é só para fazer um corte, o cliente quer mais, ele quer um cabelo prático, de acordo com a personalidade dele, com o típico físico, que se encaixe na estrutura óssea do rosto”, explica Márcia Donca.

Apesar das mudanças que ocorrem no ramo da beleza, Márcia Donca definiu uma meta que não muda: “No final da minha carreira quero fazer um monte de gente feliz”.



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