|
Postado em 28/07/2008 - 14:30
107 anos: Para “seo” Levi, um privilégio divino
|
“Um privilégio de Deus”. É dessa forma que Levi Alves Ferreira define os 107 anos de vida. Ou melhor, como ele mesmo diz: “107 anos e cinco meses”.
Nascido em 22 de fevereiro de 1901, seo Levi é o homem mais velho da Arquidiocese de Guanhães, que engloba 31 cidades da região, e ele garante que nunca teve momentos ruins na vida, pelo contrário, atravessou mais de um século de vida transbordando alegria, sempre tendo um sorriso a oferecer.
Alegria que contagia quem pára para ter um dedo de prosa com o ancião. Histórias não lhe faltam, e são contadas com uma precisão que impressiona quem as ouve. Seo Levi lembra de datas, falas, locais, pessoas, com uma exatidão surpreendente, são histórias com mais de 70, 80, 90 anos.
Histórias de um jovem de 25 anos, que apaixonado, pula todas as etapas de um relacionamento de época para se casar após alguns dias de namoro. Um casamento que perdurou por décadas, foram 77 anos de casado, e que terminou em 24 de maio de 2003 com a morte da amada, dona Dulce Célia de Meira Alves, aos 97 anos.
E para os que não conseguem se lembrar da data de casamento após alguns anos, seu Levi dá mais uma demonstração da sua memória: “Foi no dia 6 de abril de 1926”. Na época, devido à morte de um amigo querido, seo Levi preferiu que não fosse feita nenhuma festa. Mas o fato não impediu que o momento se transformasse no mais importante dos seus 107 anos.
“Para mim o momento mais especial da minha vida foi o dia que eu me casei. Senti-me tão satisfeito, vivi 77 anos de casado, nunca discuti, foi uma vida maravilhosa, tivemos uma vida muito boa mesmo”, relembra com os olhos lacrimejando o eterno apaixonado. “Sinto muito a falta dela, foi minha companheira por 77 anos, é muito tempo”, conta.
Foi falando de sua esposa, inclusive, que seo Levi tocou pela primeira vez na palavra saudades. Quando perguntado em seguida se sentia saudade de alguma outra coisa, seo Levi foi enfático: “Não sinto saudades de nada, tenho lembranças, mas não saudades”.
Seo Levi não se conforma como as pessoas tratam o casamento hoje em dia. “Hoje já casa pensando na separação, tenho ouvido muito falar, ‘se der certo bem, se não der, eu saio para outro’. Eu acho errado, se construiu uma família tem que conservar”, disse.
Mas foi ainda criança que seo Levi aprendeu a trabalhar na roça, e foi no labor diário do campo que ele conquistou tudo que deixou aos afiliados. Quando jovem trabalhou como arrieiro de tropa para o pai, que fazia toucinho na fazenda Cafundó, a mesma que ele nasceu, no município de São José do Jacuri, e dali partia para Santa Bárbara, eram 17 dias de viagens.
E foi em uma dessas viagens até Santa Bárbara, de noite, em um rancho de tropa, que seo Levi se deparou com um clarão em uma fazenda próxima ao rancho. O ancião conta que olhou para o céu, mas não estava relampeando. Desconfiado e muito curioso cavalgou até o local, e foi ali, no ano de 1925, que seo Levi foi apresentado a energia elétrica.
“Cheguei lá e perguntei o que era aquilo, o fazendeiro me mostrou aquilo tudo e eu gravei e falei: ‘o dia que eu tiver uma casa, vou colocar luz nela’”. Em 1945, seo Levi cumpriu a promessa que fez a si mesmo, “A primeira casa que iluminou no município foi lá em casa, na roça”, conta com orgulho.
Mas o pioneirismo de seo Levi não parou por ai. Ele também foi o primeiro a ter um carro na cidade. “Eu vi lá em Belo Horizonte passando e perguntei para o cara ‘o que é isso?’. Ele me respondeu: ‘isso aqui chama automóvel’. Na hora pensei, ‘será que aquilo sobe morro? Se subir morro, eu ainda compro um”, e de novo seo Levi cumpriu a promessa.
O primeiro automóvel que desfilou pelas ruas de São José de Jacuri foi o Jipe de seo Levi. Na época, ele conta que foi preciso fazer uma requisição, pois não haviam fábricas no Brasil e o automóvel vinha dos Estados Unidos. “O jipinho salvou a vida de muitas pessoas”, relembra.
E seo Levi embarcou, literalmente, no desenvolvimento que o acompanha nesses 107 anos, já andou em todo tipo de veiculo de locomoção, inclusive de avião, o qual ele garante que não teve medo. “Foi bom demais, gostei demais e não deu medo. Eu vi tanta gente entrando, falei: ‘se morrer, morre todo mundo’”, afirmou rindo.
Ao contrário de muitos saudosistas, seo Levi prefere os dias de hoje com todas as tecnologias e facilidades que surgiram. “A vida está ótima, eu devia ter nascido agora, meu pai abreviou minha vinda”, brinca.
O ancião, que trabalhou até os 90 anos, agora aproveita a vida de aposentado. “A vida de aposentado é ótima. Eu pego meus R$ 400 sem fazer nada. Antes tinha que trabalhar muito, hoje pego R$ 400 sem fazer esforço nenhum”.
Com o “tira jejum” diário a base de joelho de porco ou paçoca de carne e sem nunca ter ingerido um gole sequer de bebida alcoólica ou fumado um cigarro, Seo Levi diz ter aproveitado a vida como pôde; viajou, riu, amou e não deixou nada para trás. “Fiz tudo o que quis fazer”.
|