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Postado em 11/08/2008 - 09:30

Padre da CNBB participa da
reunião do Clero em Guanhães


O Padre Nelito Donato Dornelas assessor da Comissão Episcopal do Mutirão para a Superação da Miséria e da Fome da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil participou, a convite do Bispo Diocesano Dom Emanuel Messias de Oliveira, da reunião do Clero que foi realizada nos dias 4 a 6 de agosto, na casa do bispo em Guanhães.

O padre Nelito Dornelas foi convidado para estudar e assessorar sobre o tema: As Novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil e para ajudar na próxima assembléia diocesana. Na ocasião, Padre Nelito Dornelas recebeu a reportagem do jornal Folha de Guanhães na casa do bispo, e além da assembléia discorreu sobre vários outros assuntos. Política foi um deles.

Assembléia

Padre Nelito Dornelas, que reside em Brasília, explicou que a partir da reunião, realizada dos dias 4 a 6 de agosto até o ano que vem, a Diocese de Guanhães entra em assembléia. Segundo ele a assembléia tem como foco ouvir o público católico. “É o momento em que a diocese se dispõe a escutar todo o publico católico que queira ser ouvido para saber o que a igreja católica precisa fazer para melhor atender a demanda da evangelização dos tempos de hoje”, disse o padre.

“Nesses dias estamos discutindo o que podemos fazer para colocar toda a Diocese de Guanhães nessa dinâmica de assembléia no sentido de participação popular para que ensaie também dentro da igreja um novo cidadão, porque nós queremos uma nova cidadania em todas as suas dimensões então comecemos pela dimensão religiosa, dimensão da fé, porque você vai construir novos sujeitos que por sua vez vão ajudar a construir o chamado outro mundo possível”.

Diretrizes

Sobre as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil que valem para 2008 a 2010 e direcionam as ações da Igreja Católica para questão da evangelização e devem ser adaptadas em cada diocese, Padre Nelito explica: “as novas diretrizes dão “pistas de ações que devem ser adaptadas em cada diocese, mas não é uma daptação pura e simples, é uma adaptação consultiva, construtiva, a partir das bases”.

De acordo com o padre, as diretrizes são embasadas em três pilares, que passam pela discussão de como evangelizar a pessoa, a comunidade e a sociedade.

“O que nós podemos fazer melhor para evangelizar as pessoas, quais são as exigências que as pessoas têm hoje, os desejos, as necessidades. À luz disto, evangelizar a pessoa para que ela seja cidadã da igreja, reconhecida e chamada pelo nome. Para nós a igreja é essencialmente comunitária, você não pode ver a sua fé de maneira egoísta e individualista, antigamente se dizia ‘salva a sua alma’, hoje nos pensamos mais em nos salvarmos em comunidade. E na dimensão da sociedade ver o que avançou, o que ela construiu e quais são os apelos que ela faz para nós, e também para que possamos ajustar a sociedade de acordo com a lei de Deus”, explica o padre.

Ainda de acordo com Padre Nelito, as diretrizes respeitam o contexto regional em que serão aplicadas trazem quatro exigências: diálogo, serviço, anúncio e comunhão interna.

“Essas quatro exigências têm de estar articuladas no que chamamos de inculturação da fé, ou seja, respeitar as diferenças culturais, políticas, econômicas e sociais de cada região”, explica o religioso.

Católicos no Brasil

De acordo com Nelito Dorneles, a igreja católica tem vivido um período de estabilidade quando a questão é número de fiéis. Ele explica que, entre o censo de 2000 e o de 2007 feito pelo IBGE, a porcentagem de fiéis foi exatamente a mesma nos dois levantamentos, 73,4%. Segundo o padre a manutenção do número de fiéis tem a ver com a estabilidade econômica que o país vive hoje.

“Quando as pessoas estão com as condições econômicas satisfatórias elas são mais conservadoras, mais definidas, mais estabilizadas. Já quando a situação está mais difícil, elas correm atrás de qualquer promessa, elas buscam uma solução rápida para seus problemas e acabam encontrando aventureiros que prometem mundos e fundos”, explica o padre.

Ainda segundo Dorneles, a desilusão causada pelas promessas infundadas de “aventureiros” colaborou para que crescimento do número de ateus no país.

“A maioria das pessoas que se tornaram atéias passaram por esse trânsito religioso, foram buscar em muitos lugares e não tiveram suas expectativas correspondidas, acabaram então por não acreditar em mais ninguém e tornando-se ateus. Religião não combina com promessa vazia, promessa falsa”. Para o padre, o Brasil é essencialmente religiosos, o que o ele considera “uma graça muito grande”.

Desafios da Igreja

Segundo o padre Nelito Dornelas, a maior desafio da igreja católica hoje é fazer com que o fiel concilie sua vida religiosa com a vida pessoal. De acordo com o padre, o próprio Papa na conferência dos Bispos em Aparceida afirmou ser esse o maior desafio da igreja nos dias de hoje. “O maior desafio da Igreja Católica é o divórcio da fé professada pelos católicos e o modo como eles vivem a vida, como se não tivesse nada a ver a vida e a fé. Há um divórcio entre a fé professada e a vida familiar, com adultério, divórcio, há esse fosso, essa contradição”, explicou o padre.

Mutirão

Padre Nelito Dornelas explica que o Mutirão para a Superação da Miséria e da Fome foi inspirado no projeto Ação da Cidadania Contra a Fome, Miséria e pela Vida, do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que, por sua vez, alcançou o governo federal que criou o Consea – Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – quando Itamar Franco era presidente. Segundo o padre, quando Fernando Henrique Cardoso assumiu, o Consea foi extinto.

“A CNBB sentiu que deveria assumir aquilo que o governo tinha que ter como projeto, então em 2002 a CNBB montou a Comissão Episcopal do Mutirão para a Superação da Miséria e da Fome, isso deu certo que o Luiz Inácio Lula da Silva assumiu esse projeto e fez o Fome Zero, baseado, justamente, no mutirão. O fome zero é baseado no mutirão” afirmou o padre.

Segundo ele a Igreja Católica sentiu que deveria colocar o assunto como pauta política e, por isso, lançou, antes do Fome Zero, o “documento 66”, intitulado Exigências Éticas e Evangélicas para a Ação da Miséria e da Fome.

“Para o governo a fome é uma questão política, ele não pode deixar as multidões com fome. Para a igreja a fome, no entanto, é mais que uma questão política, é uma questão de espiritualidade. E por isso há uma distinção aí, embora o Fome Zero tenha inspiração no projeto do Betinho e do Consea”, disse Nelito Dornelas, que é membro do Consea.

Política

Sobre a CNBB regional ter proibido padres de Minas Gerias e Espírito Santo não serem candidatos, Padre Nelito explicou que a entidade não é contra que religiosos se candidatem ou entrem para a vida política, entretanto existem regras para que isso ocorra. De acordo com o ele, a CNBB não é contra padre ser candidato e segue a orientação do Papa.

“Se o padre quiser se candidatar ele pode. Agora o bispo é quem resolve. A maioria dos bispos resolvem pelo que a Lei Civil determina: que ele entregue a paróquia, não conitinue pároco daquela paróquia no período eleitoral e depois não assuma mais aquela paróquia. Ele pode até exercer as duas funções depois de eleito, mas em uma paróquia diferente”.


Nelito Dornelas é padre diocesano a 21 anos, da Diocese de Governador Valadares. Formado em Filosofia e Teologia, é especialista em Ministério e Teologia Pastoral, pós-graduado em Psicanálise Clínica, Grafoánalise e fez mestrado em Ecumenismo em Chicago, nos Estados Unidos. Foi pároco em várias paróquias de Governador de Valadares, reitor de seminário na Diocese de Governador Valadares e na Diocese de Itabira. Por cinco anos foi coordenador do Encontro Nacional das Comunidades Eclesiásticas de Base. Foi convidado pela CNBB para integrar a Comissão Episcopal do Mutirão para a Superação da Miséria e da Fome e é membro do Consea - Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – onde representa a CNBB.

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