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Postado em 15/07/2008 - 14:30
Em meio ao lixo, cidadãos tentam sobreviver
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É de uma montanha de lixo que 29 guanhanenses retiram o sustento de suas famílias. A grande maioria de mulheres - 25 no total -, que decidiram encarar o que Guanhães descarta e é levado até o aterro sanitário, o lixão. São em média quarenta toneladas de resíduos despejados diariamente pelo caminhão que recolhe o lixo na cidade.
Como não existe uma coleta seletiva na cidade, os catadores são obrigados a manusear todo tipo de lixo para separar o que pode do que não pode ser reciclado. E no meio desse lixo todo, a falta de consciência do cidadão fica escancarada. Até fezes humanas são encontradas entre papel, alumínio, plásticos e outros materiais recicláveis.
Depois da criação da Associação de Catadores de Material Reciclável de Guanhães – Ascamarg - a situação dos trabalhadores do aterro melhorou. Um convênio firmado entre a prefeitura e a associação possibilitou aos catadores maquinários para prensar o lixo, esteira para selecionar, entre outros equipamentos. Mas ainda há muito que ser feito. O refeitório está em situação precária, não há um local adequado para os catadores almoçarem.
Entretanto a diretora do departamento de Meio Ambiente, bióloga Ana Carolina Ribeiro Caldeira, garantiu que a reforma do refeitório iria começar no dia 11, sexta-feira. “Vamos reformar o refeitório para que os trabalhadores possam ter uma condição melhor para comer”, afirmou a diretora. Além disso, segundo a diretora, o local deverá ser reorganizado para melhorar a qualidade de trabalho dos coletores.
Com o fogão quebrado, os catadores improvisam uma maneira de esquentar o almoço. Utilizam latinhas e álcool para fazer um fogareiro. Mas tem dia que comer se torna algo impossível.
Segundo a presidente da Ascamarg, Claudiana Felício, que há seis anos trabalha no aterro, animais mortos e fezes são constantemente encontrados entre os materiais recicláveis. “Tem dia que a gente não consegue almoçar”, disse a presidente, que é chamada pelos companheiros de trabalho de Diana
Mas esse é o menor dos problemas. Acidentes são constantes entre os trabalhadores. Isso porque vidros e até seringas são descartadas juntamente com o restante do lixo. Mesmo protegidos com materiais de segurança - como botas, luvas, avental, máscara – é raro o dia terminar sem que alguém não tenha se machucado.
“Algumas pessoas enrolam o caco de vidro, por exemplo, para evitar acidentes, mas nem todos têm a consciência de que pode machucar os recicladores” enfatizou Diana. Apesar dos cacos de vidro serem os mais comuns em meio ao lixo, são as seringas e o lixo hospitalar que mais assustam os catadores.
“Existe um aterro específico para esse tipo de lixo, mas sempre encontramos lixo hospitalar”, disse a presidente da associação. “Temos medo de pegar uma doença contagiosa e, até, de perder a vida”, afirmou Diana.
Sobre as seringas e o lixo hospitalar, a diretora do Meio Ambiente Ana Carolina Ribeiro Caldeira afirmou que existe uma coleta específica para o lixo hospitalar. Segundo ela o lixo é recolhido nas clínicas particulares, hospital, PSFs, laboratórios e farmácias.
A diretora acredita que esse tipo de resíduos é misturado com os lixos domésticos onde existem pessoas enfermas ou fazendo algum tratamento em casa.
“Temos o serviço de coleta de lixo hospitalar, se alguém mistura esse lixo é quase impossível identificar a sua origem, não tem como controlar”, afirmou Ana Carolina. Ainda segundo ela, os catadores que recolhem o lixo no caminhão são orientados a não pegar e misturar esse tipo de lixo. “Vamos a todas as clínicas, o que falta é consciência das pessoas em não misturar o lixo”, disse.
Um negócio de centavos
É de centavo em centavo que os associados tentam pagar as contas da associação e sobreviver. Segundo a presidente da Ascamarg Claudiana Felício, a associação tem passado por dificuldades. De acordo com ela, metade do dinheiro arrecadado com a venda dos materiais recicláveis é gasto na manutenção das máquinas e na compra de materiais de segurança. “São muitos gastos, o dinheiro não dá para arcar com tudo”, afirmou.
A bióloga Ana Carolina Ribeiro Caldeira informou que a prefeitura tem arcado com os gastos de energia elétrica e colaborado com materiais de segurança, como luvas e aventais.
A média de salário dos catadores é de R$ 240,00 por mês, segundo Diana. Um pouco mais da metade de um salário mínimo, que é R$ 415,00. Mas a situação já foi pior. No primeiro mês da associação, a retirada mensal dos trabalhadores ficou em R$ 80,00.
De acordo com a presidente da Ascamarg, o preço do quilo do papel misto - jornal, caderno, revista, etc. – é de cinco centavos. O material mais caro recolhido pelos catadores é o cobre, que é vendido por R$ 8,00 o quilo. “Vem muito pouco cobre, eles [catadores] pegam tudo na rua”, afirmou Diana.
O papelão, por exemplo, é vendido a 14 centavos o quilo. Um fardo de papelão pesa 300 quilos. Mas, apesar de ser um material comum “um fardo de papelão por dia é muito”, afirmou a presidente da Ascamarg. Isso porque catadores e empresas de reciclagem coletam a maioria do material antes mesmo do caminhão.
Personagens do Lixão
Na associação estão trabalhadores do Agroder, Alvorada, Aod Perira e Córrego da Onça. Cada um com uma história, cada um tentando sobreviver de forma digna, sem roubar nada de ninguém, mas, sim, lutando e conquistando, com trabalho árduo, uma condição de vida melhor.
É o caso de Juliana Marques de Oliveira, que há três anos trabalha com a reciclagem de lixo. Com dois filhos, de 5 e 6 anos, ela e o marido moram na casa da nora e há 30 dias dormem do lado de fora da casa e se sustenta com o dinheiro ganho no lixo. “A gente que tem filho e família não pode ficar escolhendo serviço”, disse Juliana Oliveira. Depois de procurar emprego e não conseguir, o marido de Juliana também começou a trabalhar na Ascamarg.
Não é incomum encontrar familiares trabalhando junto no lixão. Julieta das Graças Felício, 56 anos, começou a trabalhar no aterro em 2001. Dona Julieta é mãe da presidente da Ascamarg, Claudiana Felício, e de Vanuza Aparecida Felício, que também faz parte da associação. É do lixo que Dona Julieta e suas filhas sustentam suas casas. “Sinto-me mais livre e alegre trabalhando aqui, aqui é muito bom”, afirmou dona Julieta.
Dona Julieta é inclusive uma das mais antigas a trabalhar no lixão, ao lado de Maria das Graças, ou como é conhecida na associação, dona Sinhá, 55 anos. As duas foram as primeiras a trabalhar no local, quando ainda tinha que separar o lixo no aterro.
Na época as condições eram bem piores e as duas tinham que trabalhar até de noite. Hoje, elas começam às 7 horas da manhã e trabalham até às 4 horas da tarde e no sábado até o meio-dia. “O pessoal aqui é legal, melhorou muito com a associação”, disse dona Sinhá.
Discriminação
Infelizmente as dificuldades dos coletores que trabalham na associação não ficam somente nas imediações do lixão. Nas ruas eles são obrigados a lidar com a discriminação. Nesse assunto não há exceções, todos os trabalhadores já foram vítima de alguma agressão verbal, um olhar crítico ou algum deboche.
“As pessoas chamam a gente de lixeiros, passam na rua e ficam chamando de lixão”, contou Claudiana Felício, presidente da Ascamarg.
Nem mesmo os mais antigos, como dona Sinhá, escapou do preconceito. “Fico muito triste com a discriminação.”
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