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Postado em 07/07/2008 - 10:30
Juliana Freitas, a campeã de empréstimos de livro
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Na biblioteca municipal de Guanhães não adianta. Ninguém empresta livros como ela, ninguém lê tanto como ela. Você pode contar, recontar as fichas da biblioteca e vai ver, que ela é a campeã de empréstimos de livros na cidade. Apesar disso, ela não levou nem um prêmio, medalha ou troféu pelo primeiro lugar em empréstimos de livros, mas não é de se assustar, já que vivemos num país que pouco lê.
Mas isso nunca importou para ela. Não foi o reconhecimento que levou Juliana das Dores de Freitas a se apaixonar pela leitura. Para a mãe de quatro filhos, ler é conhecer novos mundos e novas palavras. É sair de um mundo cheio de tristezas para um mundo de emoções incontáveis. Os mais críticos podem dizer que isso é fugir da realidade.
Mas esse não é o caso dessa belíssima personagem de Guanhães. Foi com as panelas no fogo, com os filhos arrumados e os deveres de dona-de-casa encaminhados que Juliana de Freitas recebeu a reportagem da Folha.
Juliana não lê para fugir. Ela não tem motivos para se esconder de nada. O imenso sorriso no rosto deixa claro que se trata de uma pessoa feliz. Seus filhos são saudáveis e o marido é “um ótimo companheiro”, como ela mesma diz com orgulho. Juliana lê, sim, para encontrar e embriagar-se cada vez mais daquilo que muitos perderam e não se deram conta ainda: a felicidade.
Como ela mesma diz: “Para ser feliz basta muito pouco. Uma flor na porta da sua casa, uma criança brincando, hoje as pessoas não param para ver isso”, afirma Juliana. “Hoje as pessoas tem tudo em casa e muitas vezes não é o suficiente. Felicidade é muito fácil de encontrar, depende do modo de você olhar as coisas.”
A paixão pela leitura veio cedo, desde pequena Juliana já deixava de comer a merenda no intervalo das aulas para poder ler e viver as aventuras descritas nos livros. Um fato relevante, se lembrarmos da triste realidade de que muitas crianças vão à escola hoje com o único propósito: comer a merenda.
Mas aos 12 anos ela teve que parar de estudar. As dificuldades afastaram a jovem da escola, mas não da paixão dos livros, que renasceu com força total em 2006, quando Juliana começou a tomar emprestados livros na biblioteca municipal.
Aos 29 anos já são 235 livros lidos. Juliana conta que voltou a ler pelos filhos, pela vontade de ensinar as crianças, de passar o conhecimento que a vida não quis lhe dar por meio da escola, mas que a abraçou na paixão pela leitura. E não tem jeito, os quatro cômodos da casa dela são usados para leitura. Até na cozinha durante o preparo do almoço o livro está lá, do lado. Mas ela garante, apesar dos olhos estarem voltados uma hora para o livro outra para as panelas, a comida nunca queimou.
Juliana consegue equilibrar sua vida social com suas obrigações, ela garante que o amor pela leitura não atrapalha em nada suas funções. “Arrumo casa, leio. Cuido das crianças, leio. Vou lá na rua visitar os amigos, brinco com todo mundo e volto para casa, e leio.”
A realidade de Juliana é contrária a tudo que a cerca. Não existe biblioteca no seu bairro, o Aod Pereira. Para cada visita a biblioteca municipal são 45 minutos de caminhada. As novelas da globo, paixão nacional, é desbancada e fica para segundo plano diante de um belo livro.
E na casa dela não tem vez. Quem não gosta de ler, pelo menos tem que gostar de ouvir histórias. Juliana faz às vezes de narrador e acaba por contagiar a todos, que ficam ansiosos para saber o próximo capítulo ou a próxima aventura. Os filhos não dormem sem ouvir os contos que a mãe cria baseados nos livro que lê. Até mesmo o marido teve que se adaptar a paixão pela leitura da esposa.
Juliana é apaixonada por Júlio Verne. Se perguntada qual o livro preferido do autor, a resposta é instantânea: todos. A única coisa que a entristece quando lembra do autor é que não restou nenhuma obra a mais para ser lida. “É uma pena que acabou. Eu o adoro”, lamenta.
A meta agora é apreender inglês. A filha mais velha de 11 anos, Letícia de Freitas Soares, já se acostuma a dividir o livro com a mãe. Juntas as duas caminham para um novo mundo, onde a língua inglesa é o idioma oficial. O incentivo à leitura que a mãe faz aos filhos é impressionante. Para Juliana de Freitas o fato dos jovens não se interessarem tanto pela leitura nos dias atuais se deve muito a falta de apoio dos pais.
“Essa semana, por exemplo, fui pegar um livro para o meu menino de sete anos, ele está apreendendo a ler e quero que ele entre no mundo da leitura para que no futuro ele seja feliz.”
Mas, seja no mundo real ou da literatura uma coisa é certa, onde quer que você encontre Juliana das Dores de Freitas um sorriso imenso com certeza estará estampado em seu rosto. “Só quero te dizer uma coisa: eu sou feliz!”
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