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Postado em 28/07/2008 - 14:30
Jacuriense, naturalidade em extinção
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Os registros de nascimentos realizados no Cartório de Registro Civil e Tabelionato de São José do Jacuri, no primeiro semestre do ano, não deixam dúvida: o jacuriense é um ser em extinção. Do início do ano até 23 de julho, data do último registro de nascimento, só três crianças foram registradas como naturais de São José do Jacuri.
Proprietária do único cartório da cidade e há 42 anos registrando os filhos de São José do Jacuri, Maria Geralda Gomes de Almeida, a dona Zú, diz que os registros continuam sendo feitos na cidade, mas as crianças não são mais naturais do município. “As mães saem daqui para ter os filhos em São João Evangelista, Peçanha e Guanhães”, afirmou a escrivã.
Mas antes não era assim, informou dona Zú. Segundo ela, por volta de 15 anos atrás, a média de registro de naturais da cidade era de 40 crianças por mês. Dona Zú disse que o ex-prefeito e médico Wenilto Bernardo realizava os partos em um hospital improvisado, onde hoje é a Secretaria de Saúde, e, como nasciam na cidade, os bebês eram registrados como cidadãos jacurienses.
Segundo dona Zú, os pais ainda hoje insistem para que os filhos sejam registrados como naturais de São José do Jacuri, mas desde que passou a ser obrigatória a declaração de nascido vivo fornecida pelo hospital onde a criança nasce, a mesma tem de ser registrada natural do município que consta no documento. Preocupada, a escrivã diz que “a naturalidade de São José do Jacuri vai deixar de existir, vamos deixar de existir”.
Para a secretária de Saúde, Stela Maris Machado Alves de Meira, o fato dos naturais de São José do Jacuri estarem diminuindo não gera preocupação, pois apesar do jacuriense natural estar sumindo, a população, que hoje é de 6.958, segundo o IBGE, se mantêm e não tem diminuído.
Segundo ela, hoje, com todos os programas de controle de natalidade, a média de nascidos vivos do município é de 110 por ano e, aproximadamente, 10% nascem na cidade.
De acordo com ela, São José do Jacuri não possui estrutura para realizar partos na cidade, e “seria negligência realizá-los”, afirmou a secretária. “Não temos sala de parto, infra-estrutura e nem profissionais”, disse Stela Maris. “Não justifica fazermos partos aqui, estaríamos indo contra todos os programas que prevêem a redução da mortalidade materna e infantil”, concluiu.
A secretária informou que os partos na cidade só são realizados quando não há a possibilidade de transferência para os hospitais da região. Quando isso ocorre, os partos são feitos na Unidade de Saúde ou na casa das gestantes.
Como não existe nenhum ginecologista e obstetra na cidade, quando a mãe entra em trabalho de parto, em uma situação que não é possível transferir para algum hospital da região, o mesmo é realizado pelas funcionárias da unidade de saúde ou pelo clínico geral, José Urubatão da Rocha Vaz.
“As gestantes fazem o pré-natal, são avisadas e orientadas para não chegarem em cima da hora para não terem o nenê aqui, porque falta estrutura, nenhum posto de saúde está preparado para realizar um parto”, explicou o médico José Urubatão.
Segundo o médico, a segurança da criança e da mulher é mais importante do que a naturalidade e, por isso, a orientação é não ter crianças em São José do Jacuri.
“O cidadão jacuriense tem o direito de receber o melhor atendimento possível, principalmente uma gestante e seu filho”, afirmou o médico. “O parto pode ser a coisa mais simples do mundo, mas pode se transformar em uma coisa muito séria e complicada que você só vai descobrir em cima da hora”, disse.
Apesar de não ter a estrutura adequada, segundo o clínico geral, nenhuma criança que nasceu na cidade foi a óbito. Uma funcionária da unidade de saúde, que já fez vários partos, confirma a informação do médico, segundo ela nenhum recém-nascido na cidade morreu. “Nunca aconteceu de perder uma criança, acho que é porque a gente reza muito, eu largaria a profissão se isso acontecesse comigo”, disse a funcionária que pediu para não se identificar.
Depois da morte da parteira Maria Barrosinho, há cerca de oito anos, nenhuma outra atuou na cidade, o que só colaborou com a diminuição dos nascidos em São José do Jacuri.
Os jacurienses
Ironicamente, o homem mais velho da região é um jacuriense. Levi Alves Ferreira, de 107 anos, nasceu em 22 de fevereiro de 1901 na fazenda Cafundó, no município de São José do Jacuri. Na época, as mulheres ganhavam os filhos em casa, geralmente com apoio de uma parteira, e foi desta forma que o mais velho jacuriense nasceu.
“Nasci na fazenda mesmo, com as parteiras, nasci jacuriense” afirmou o ancião, que se diz triste com a diminuição dos cidadãos naturais de São José do Jacuri. “Antigamente nascia sem médico, sem nada. Minha mãe criou doze filhos, nunca procurou médico, ela mesma fazia seu ‘chazinho’ lá do mato e dava para gente”, lembra seo Levi.
Com 16 anos, Érika Cristina dos Santos Pereira é uma das jacurienses que nasceram no hospital improvisado, onde hoje é a Secretaria de Saúde. A mãe, Vera Lúcia dos Santos, conta que antigamente todos nasciam na cidade. “Na época, nascia todo mundo aqui, só quando era uma gravidez de risco que transferiam para outra cidade”, afirmou Vera Lúcia, que tem outros cinco filhos.
Deles, o menor, de cinco anos, nasceu em São João Evangelista, o que não agrada nem um pouco o menino, que se diz jacuriense. “Eu nasci aqui mesmo, sou daqui, não sou de São João Evangelista, não”, disse o menino enquanto a mãe tentava explicar ao filho que ele havia nascido em outra cidade.
Nascida no início de ano, em 31 de janeiro, Yamara Fabian Kristine Horta dos Santos ainda não tem consciência da responsabilidade que carrega: a sua naturalidade. Ela é uma das três crianças que foram registradas como natural de São José do Jacuri em 2008.
Apressada, a pequena Yamara Fabian não quis esperar para nascer em outra cidade, conta o pai, Fabiano Mateus dos Santos, de 21 anos e que também é jacuriense. Apesar de arriscado, Fabiano dos Santos diz que ocorreu tudo certo durante o parto, que foi realizado no posto de saúde. Depois do susto, o pai agora se diz orgulhoso da naturalidade da filha.
“Se tivesse um hospital na cidade, muitos poderiam ter o orgulho que eu tenho, porque é um orgulho a gente ver o filho nascer na cidade da gente”, afirmou o pai.
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